O desempenho da economia brasileira em 2027 poderá influenciar diretamente o mercado de consórcios. Com as eleições presidenciais de 2026 e as incertezas sobre os rumos da política econômica, fatores como juros, renda, emprego e controle fiscal devem determinar o ritmo de expansão do setor.
A avaliação é da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), que analisa possíveis cenários para o próximo ano. Segundo Luiz Antonio Barbagallo, economista da entidade, uma projeção mais precisa dependerá do resultado eleitoral e das medidas adotadas pelo próximo presidente para reorganizar a economia.
Déficit fiscal deve influenciar os próximos anos
Na análise do economista, o Brasil enfrenta um déficit fiscal relevante, problema que precisará ser enfrentado independentemente da linha econômica escolhida pelo próximo governo. As alternativas, de acordo com Barbagallo, envolveriam redução de despesas, aumento de impostos ou uma combinação das duas medidas.
Esse processo poderia desacelerar a economia no curto prazo, mas também abrir espaço para uma eventual redução das taxas de juros. O impacto sobre o Sistema de Consórcios dependerá da forma como essas decisões afetarão a renda das famílias, o nível de emprego e a confiança dos consumidores.
O cenário também poderá variar conforme a condução da política econômica. Uma abordagem mais orientada pelo mercado ou uma atuação maior do governo produziriam efeitos diferentes sobre investimentos, consumo e contratação de crédito.
Selic em 12% e crescimento econômico de 1,5%
Com base nas projeções divulgadas pelo Boletim Focus, do Banco Central do Brasil, a taxa Selic poderá chegar a 12% no final de 2027. Para Barbagallo, essa perspectiva indica que não devem ocorrer mudanças expressivas nos juros no curto prazo.
Ao mesmo tempo, a economia brasileira teria um crescimento estimado em 1,5%. Embora positivo, esse avanço considerado tímido poderia pressionar o mercado de consórcios caso venha acompanhado de redução da renda e do emprego.
Em um ambiente de menor crescimento, famílias e empresas podem adiar decisões de compra ou assumir compromissos financeiros com maior cautela. Por outro lado, o consórcio pode continuar sendo considerado por consumidores que buscam planejamento para adquirir imóveis, veículos, máquinas ou outros bens sem depender exclusivamente de financiamentos tradicionais.
O comportamento do setor diante das oscilações econômicas também foi abordado em uma análise anterior sobre a evolução das vendas e a relação com a taxa Selic.
Índice de confiança registra queda inédita
As expectativas do segmento já demonstraram sinais de cautela. O Índice de Confiança do Sistema de Consórcios (ICSC), divulgado periodicamente pela ABAC, não havia registrado menos de 60 pontos desde o início da série, em maio de 2024.
Essa marca foi superada para baixo pela primeira vez em junho de 2026, quando o indicador atingiu 53,8 pontos. O resultado refletiu a percepção dos executivos do setor sobre uma possível desaceleração da economia brasileira.
Apesar do recuo na confiança, a ABAC não projeta uma recessão severa em 2027. A avaliação é de continuidade do processo de desaceleração observado gradualmente, o que poderia deixar os resultados do Sistema de Consórcios mais modestos.
De acordo com Barbagallo, somente a partir do final de outubro será possível trabalhar com um cenário econômico mais definido e estimar as taxas de crescimento dos seis segmentos do consórcio para o ano seguinte.
Educação financeira pode sustentar procura
Mesmo diante das incertezas, Paulo Roberto Rossi, presidente executivo da ABAC, avalia que o consumidor mais consciente sobre educação financeira deverá continuar analisando alternativas para organizar o futuro financeiro.
Na visão do executivo, períodos de crise não eliminam necessariamente a procura por consórcios. A experiência dos anos de 2020 e 2021, durante a pandemia mundial, é citada como exemplo. Mesmo com a paralisação de diversas atividades, os consorciados mantiveram a adesão ao sistema, que registrou recordes consecutivos até os dias atuais.
Esse comportamento sugere que parte dos consumidores utiliza o consórcio como instrumento de planejamento de médio e longo prazo. A decisão, contudo, depende da capacidade de pagamento, do objetivo de aquisição e da avaliação das condições do grupo contratado.
Setor soma 3,82 milhões de cotas comercializadas
Os resultados acumulados nos oito primeiros meses do ano indicaram movimentação expressiva no Sistema de Consórcios. Foram comercializadas 3,82 milhões de cotas, que representaram R$ 389,59 bilhões em negócios realizados.
No mesmo período, foram concedidos R$ 85,72 bilhões em créditos para a aquisição de bens. As contemplações alcançaram 1,18 milhão de consorciados, que passaram a representar potenciais consumidores no mercado interno.
O número de participantes ativos também avançou e chegou a 13,55 milhões em julho. Os dados mostram a dimensão do setor, embora não indiquem, por si só, como será o desempenho em 2027. A evolução dependerá das condições econômicas, da confiança dos consumidores e das decisões tomadas após as eleições de 2026.
Assim, a expectativa da ABAC é de que o mercado continue funcionando, mas com possibilidade de crescimento mais moderado. Juros elevados, expansão econômica de 1,5% e eventuais medidas para corrigir o déficit fiscal serão os principais fatores de acompanhamento nos próximos meses.
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